Muitos pais já ouviram falar do Tesouro Direto mas não sabem que é possível investir em nome de um filho menor de idade. E que isso pode virar uma das melhores aulas de educação financeira que você vai dar.

A pergunta que a maioria não faz

Você provavelmente já ouviu falar do Tesouro Direto. Talvez até invista nele. Ou pense em investir.

Mas você sabia que é possível abrir uma conta no Tesouro Direto em nome do seu filho — independentemente da idade dele?

Sem valor mínimo alto. Sem burocracia complexa. Sem precisar de muito dinheiro para começar.

Hoje é possível comprar títulos do Tesouro Direto a partir de cerca de R$ 30. Isso significa que investir para o futuro do seu filho não exige que você tenha uma poupança robusta. Exige que você comece.

E começa, aqui, está a parte que poucos pais exploram: esse processo pode ser muito mais do que um investimento. Pode ser uma aula prática de juros compostos, prazo e objetivo — dada por você, em tempo real, com dinheiro de verdade.


Primeiro, a regra que você precisa conhecer

Não há idade mínima para investir no Tesouro Direto. Qualquer criança ou jovem pode investir, desde que tenha a supervisão dos pais.

Mas há uma regra importante: toda conta de menor de idade será vinculada a um responsável legal. Todo o processo de abertura da conta, assim como as decisões de investimento, são de responsabilidade do titular da conta.

Na prática, isso significa que seu filho não opera a conta sozinho. Você é quem abre, quem investe e quem gerencia. O nome dele está lá, o dinheiro é dele — mas o controle é seu, pelo menos até ele completar 18 anos.

Essa estrutura, aliás, é perfeita para o que queremos: investimento com supervisão consciente e educação ao longo do caminho.


Como abrir a conta — é mais simples do que parece

O Tesouro Direto lançou recentemente o TD Família, uma funcionalidade criada exatamente para essa situação.

O primeiro passo é abrir uma conta na plataforma do Tesouro Direto em nome do menor de idade. Para isso, basta utilizar o Cadastro Rápido por meio do login gov.br. Quando o representante legal faz o login, o sistema já identifica se ele possui uma conta a ser vinculada ou não com a do menor.

Depois disso, os pais ou o representante legal poderão ter a visão geral da conta do menor e realizar investimentos via PIX diretamente da própria conta.

Você também pode abrir a conta em corretoras parceiras, como Nubank, Inter e outras habilitadas pelo Tesouro Direto. Cada instituição tem seu próprio processo, mas todas seguem as mesmas regras. Os documentos necessários geralmente incluem RG ou CPF do menor e do responsável.


Quais títulos fazem mais sentido para menores

Essa é a parte que mais pais se perdem. Existem diferentes tipos de título no Tesouro Direto, e cada um tem um perfil de uso. Para o objetivo de investir em nome de um filho, alguns se destacam mais do que outros.

Tesouro Selic — para começar e para a reserva

O Tesouro Selic tem liquidez diária e o pagamento ocorre em um dia útil após a solicitação de resgate. Além disso, é o único título do Tesouro Direto que permite resgate antes do vencimento sem risco de perda do valor investido.

É o título mais simples, mais seguro para resgates rápidos e ideal para quem está começando. Acompanha a taxa básica de juros da economia. Para o Tesouro Selic, não há taxa de custódia para valores até R$ 10.000 por CPF. Para uma conta de menor, que começa pequena, isso significa investir sem custos adicionais no início.

Tesouro IPCA+ — para o longo prazo

O Tesouro IPCA+ contém títulos do governo brasileiro indexados à inflação. O rendimento é igual ao IPCA acrescido de uma taxa de juros extra, o que o torna uma das melhores formas de se proteger da inflação.

Para objetivos de longo prazo — faculdade, intercâmbio, primeiro imóvel — o Tesouro IPCA+ garante que o dinheiro vai crescer acima da inflação. Isso é fundamental: uma poupança que rende menos que a inflação, na prática, perde valor ao longo dos anos.

Tesouro Educa+ — criado especificamente para esse objetivo

Esse é o título que mais diretamente atende a quem quer investir na educação do filho.

O Tesouro Educa+ funciona em duas fases: acumulação e conversão em renda. Na fase de acumulação, você investe ao longo dos anos, com proteção contra a inflação. Quando chega o período planejado para os estudos, o valor acumulado é convertido em pagamentos mensais por 5 anos — 60 parcelas — acompanhando o tempo médio de uma graduação.

Em termos práticos: você investe um pouco todo mês enquanto seu filho cresce. Quando ele entra na faculdade, começa a receber uma renda mensal por 5 anos para cobrir os custos da graduação.

O investimento pode começar desde o nascimento do filho ou em momentos futuros, como ao longo do ensino fundamental. Se seu filho já é adolescente, ainda há tempo. Os prazos para investir no Educa+ variam de 3 a 18 anos.


A parte que vai além do dinheiro

Até aqui falamos do investimento. Agora vem o que interessa para a educação financeira do seu filho.

O Tesouro Direto não é só um produto financeiro. É um material didático vivo.

Mostre o número crescendo.

Quando você tem uma conta aberta no nome do seu filho e faz aportes regulares, você tem algo concreto para mostrar a ele. “Olha aqui. Esse é o dinheiro que a gente colocou no Tesouro Direto para você. Entrou R$ 500. Hoje está valendo R$ 620. Sabe por quê?”

Agora você tem uma conversa real sobre juros compostos — não uma equação no papel, mas um número que ele pode ver crescer.

Explique o conceito de prazo.

“Esse dinheiro tem uma data. Se a gente tirar antes, perde parte do rendimento. Se esperar, rende mais. Por que você acha que é assim?”

Adolescente que entende que tempo é uma variável do rendimento começa a pensar diferente sobre decisões financeiras. Começa a entender que paciência tem retorno.

Conecte com um objetivo real.

O dinheiro abstrato não motiva ninguém. Mas “esse é o dinheiro para a sua faculdade” ou “esse é o fundo para o seu intercâmbio” cria uma âncora emocional.

Quando ele tem uma conta com um propósito claro, ele passa a torcer para que o dinheiro renda. Passa a entender que resgate antecipado tem custo. Passa a pensar em longo prazo — algo que a maioria dos adultos ainda não aprendeu a fazer.


Uma funcionalidade nova que vale conhecer

O Tesouro Direto também lançou o Tesouro Direto Coletivo, que permite algo diferente: familiares e amigos podem contribuir para o investimento do seu filho.

O responsável cria uma campanha colaborativa na plataforma e pode compartilhar com a rede de amigos e familiares. Quem receber o link pode escolher um valor de contribuição, a ser pago via Pix.

Aniversário do seu filho. Natal. Formatura do ensino médio. Em vez de presentes que ficam esquecidos, as pessoas da família podem contribuir diretamente para o fundo de educação dele.


O que não fazer

Dois erros comuns que vale evitar:

Resgatar antes do prazo por impulso. O Tesouro IPCA+ e o Tesouro Educa+ sofrem marcação a mercado quando resgatados antecipadamente — o preço do título oscila e você pode resgatar menos do que investiu se o momento for ruim. São títulos de longo prazo. Devem ser tratados como tal.

Abrir conta e esquecer. O valor pedagógico do investimento está em acompanhá-lo. Mostre o extrato para seu filho uma vez por mês. Fale sobre o que aconteceu. Explique quando a Selic sobe ou desce e o que isso significa para o rendimento. Esse acompanhamento é a aula.


Por onde começar hoje

Você não precisa de R$ 5.000 para começar. Precisa de uma conta no gov.br, o CPF do seu filho e disposição de sentar com ele e mostrar o que está fazendo.

O processo todo:

Acesse tesourodireto.com.br, clique em “Para o menor de idade”, faça login com seu gov.br e siga o passo a passo do Cadastro Rápido. Depois, escolha uma corretora parceira — Inter, Nubank e outras oferecem acesso sem taxa de corretagem.

Faça o primeiro aporte, mesmo que pequeno. Chame seu filho. Mostre a tela.

“Olha aqui. Isso é o que você tem investido. Esse dinheiro está trabalhando enquanto a gente dorme.”

Essa frase, dita na frente de um número real que é dele, vale mais do que qualquer aula teórica sobre educação financeira.


No próximo artigo da série, vamos explorar o passo seguinte: como apresentar o conceito de diversificação para adolescentes — e por que não colocar tudo em um único lugar é uma lição que vai além do dinheiro.