Seu filho vai receber uma oferta de cartão de crédito assim que completar 18 anos, às vezes antes. E ele vai achar que ganhou um presente.
Você precisa explicar a ele o que são os juros rotativos antes que o banco faça essa explicação na forma de uma fatura impagável.
O que é o rotativo, afinal?
Quando seu filho recebe a fatura do cartão, ele tem duas opções: pagar o valor total ou pagar o valor mínimo.
O banco deixa pagar o mínimo porque isso é ótimo para ele, péssimo para o seu filho.
O dinheiro que não foi pago no vencimento entra no chamado crédito rotativo. É um empréstimo automático que o banco faz, sem pedir autorização, com uma taxa de juros que está entre as mais altas do mundo.
No Brasil, a taxa do rotativo costuma girar em torno de 15% ao mês. Não ao ano. Ao mês.
Para comparar: a poupança rende cerca de 0,5% ao mês. O rotativo cobra 30 vezes mais do que isso.
Como explicar para um adolescente de 15 anos
Use um exemplo concreto. Peça para ele prestar atenção.
“Imagina que você gastou R$ 500 no cartão esse mês. Compras, lanche com os amigos, um jogo. Tudo certo.
A fatura chegou. Você tem R$ 50 sobrando. O banco oferece a opção de pagar só R$ 50, o valor mínimo.
Parece ótimo, né? Você paga os R$ 50 e empurra o resto pra frente.
O problema: os R$ 450 que você não pagou agora estão gerando juros de 15% ao mês.
No mês seguinte, você deve R$ 517 — não R$ 450. Você ganhou R$ 67 de dívida do nada.
Se de novo você pagar só o mínimo, no terceiro mês você deve R$ 595. Depois R$ 684. Depois R$ 787.
Em seis meses, aqueles R$ 500 de compras valem mais de R$ 1.100. Em um ano, mais de R$ 2.400.”
Observe a expressão dele nesse momento. Se ele ficou quieto, você acertou na explicação.

Por que o banco oferece o mínimo então?
Porque é um negócio extraordinariamente lucrativo para ele.
Cada vez que seu filho paga o mínimo e deixa o restante “virar” no rotativo, o banco embolsa uma fatia enorme da dívida em forma de juros. Sem nenhum risco: se a pessoa não pagar, o banco pode negativar o CPF, cobrar judicialmente, e ainda assim recebeu juros por meses.
O pagamento mínimo existe para parecer uma ajuda. É uma armadilha com convite impresso na fatura.
O que você deve ensinar ao seu filho antes dos 18 anos
Três regras simples que valem mais que qualquer palestra:
Regra 1: cartão de crédito só paga quem tem o dinheiro na conta. Nunca compre no crédito algo que você não poderia pagar no débito hoje.
Regra 2: a fatura se paga inteira ou não se usa o cartão. Pagar o mínimo é aceitar um empréstimo caro sem perceber.
Regra 3: limite do cartão não é dinheiro seu. É dinheiro do banco que você está pegando emprestado. Faz toda a diferença encarar assim.
A conversa que muda tudo
Você não precisa esperar ele ter 18 anos para ter essa conversa.
Use o simulador de juros rotativos. Peça para colocar um valor que ele conhece — o preço de um tênis, de um celular, de um videogame. Ajuste para 12 meses e pergunte: “Você toparia pagar esse valor por algo que já gastou?”
Deixe ele responder. A resposta vai ser o começo de um entendimento que muitos adultos nunca tiveram.
Quer continuar essa conversa com seu filho? Leia também: Como abrir a primeira conta bancária do seu adolescente — e veja como ensinar os fundamentos antes que o banco faça isso por você.
Nota editorial: As taxas usadas neste artigo refletem as médias praticadas no mercado brasileiro de crédito rotativo. Consulte as condições específicas do banco do seu filho antes de qualquer decisão.
